O franco suíço é considerado a “moeda mais forte do mundo”, mas representa desafios para a economia
O franco suíço, tradicional porto seguro em tempos de incerteza, alcançou o maior nível frente ao dólar em 11 anos. Apenas no início de 2026, a moeda já acumula alta de 3,5%, depois de ter avançado 12,7% em 2025. Esse movimento reflete um cenário global cada vez mais instável: a imprevisibilidade da política comercial dos Estados Unidos, as dúvidas sobre a independência do Federal Reserve e o risco de novos conflitos militares vêm empurrando investidores para ativos considerados mais seguros.
O problema é que o sucesso do franco começa a se transformar em dor de cabeça para a própria Suíça. Em Davos, o presidente do Banco Nacional da Suíça, Martin Schlegel, reconheceu que a valorização excessiva da moeda dificulta o trabalho do banco central. Enquanto muitos países lutam contra a inflação, a Suíça enfrenta o risco oposto: a deflação. Um franco forte barateia importações, pressiona os exportadores e esfria a atividade econômica, cenário que pode forçar o retorno dos juros negativos, abandonados apenas em 2022.
Na prática, as autoridades suíças têm poucas opções. Uma delas seria reintroduzir taxas de juros negativas, medida eficaz, mas economicamente custosa e impopular. A outra envolve intervenções no mercado cambial, que trazem riscos políticos consideráveis. Em governos anteriores, os EUA chegaram a impor tarifas de até 39% à Suíça, acusando o país de manipulação cambial, posteriormente reduzidas para 15%. Novas intervenções poderiam reacender atritos com Washington e resultar em sanções adicionais, colocando o banco central em um delicado equilíbrio entre economia e geopolítica.
Apesar desses desafios, analistas veem poucas chances de enfraquecimento significativo do franco. Para Lloyd Harris, chefe de renda fixa da Premier Miton Investors, trata-se da “moeda mais forte do mundo” no longo prazo. A estabilidade econômica da Suíça, o suporte dos preços do ouro e o status de refúgio seguro continuam atraindo capital. Tudo indica, portanto, que a pressão sobre o franco deve persistir — e que as opções do banco central seguirão cada vez mais limitadas.