Mercado britânico preparado para enfrentar o estouro da bolha da IA apesar do déficit de inovação
O mercado acionário do Reino Unido deverá demonstrar notável resiliência diante do inevitável estouro da bolha da inteligência artificial. Analistas acreditam que, diferentemente do colapso da bolha das empresas ponto.com, Londres está bem protegida contra choques tecnológicos vindos do exterior.
Em meio às recentes liquidações das gigantes americanas de tecnologia, o índice FTSE 100 acumula alta de 9,21% desde o início do ano e avanço de 2% no último mês. Em contraste, embora o Nasdaq 100 registre valorização de 12,17% desde janeiro, recuou 3,6% no último mês. O economista Joe Maher acredita que, caso o entusiasmo em torno da IA realmente comece a perder força, o Reino Unido atravessará essa crise com muito mais facilidade do que a maioria dos mercados globais.
Paradoxalmente, a principal proteção do mercado britânico está justamente em sua baixa exposição ao setor de tecnologia. Antes do estouro da bolha das empresas ponto.com, em 2000, os setores de tecnologia da informação e telecomunicações representavam cerca de 30% do índice MSCI UK, contribuindo para uma queda de aproximadamente 40% do mercado. Hoje, a participação das empresas de tecnologia no índice caiu para modestos 3%, abrindo espaço para ativos defensivos de grande peso, menos vulneráveis às correções em Wall Street.
Outro fator que contribui para essa estabilidade é o desempenho da economia americana, que, diferentemente da recessão de 2001, deverá evitar uma aterrissagem brusca e impedir que os mercados globais mergulhem em um cenário de pânico generalizado.
O esperado enfraquecimento do dólar também favorece Londres. O estouro da bolha da IA poderá levar o Federal Reserve a adotar uma política monetária mais expansionista, incentivando a saída de capitais dos Estados Unidos e fortalecendo a libra esterlina.
No entanto, analistas alertam os investidores de que os ganhos recentes do mercado britânico são, em certa medida, circunstanciais. O principal suporte ao índice veio das gigantes do setor de energia, que dispararam com a alta dos preços do petróleo em meio ao agravamento das tensões no Oriente Médio, além do setor financeiro, beneficiado pela elevada volatilidade dos mercados.
À medida que o cenário geopolítico se estabilizar, esses fatores de sustentação poderão perder força. Ainda assim, os especialistas mantêm sua projeção macroeconômica global: a bolha inflada da inteligência artificial deverá estourar nos próximos 12 meses, e esse processo doloroso para Wall Street provavelmente já começou.